palavras do Guruji

viagens pelo mundo afora e pelo universo dentro de mim


"Você não precisa viajar a um lugar remoto para buscar a liberdade; ela habita seu corpo, seu coração, sua mente, sua Alma. A emancipação iluminada, a liberdade, a pura e imaculada felicidade estão a sua espera, mas você precisa escolher embarcar na jornada interior para descobri-las."
B.K.S. Iyengar em Luz na Vida

17 de maio de 2020

Sri Prashant Iyengar sobre educação em Yoga

Desde meados de abril, Sri Prashant Iyengar tem postado no Youtube aulas sobre educação em Yoga. São verdadeiras joias! Não tenho nem como descrevê-las. 

Em vez disso, selecionei um pequeno trecho do final da Lição 7, postada em 7 de maio, e o traduzi livremente aqui. Tenho consciência das limitações da minha tradução, mas minha intensão com este post é despertar o interesse de mais praticantes brasileiros e, quem sabe,
encontrar pessoas dispostas a legendar em português toda série de palestras.  


“O yoga do Guruji tinha meditação dinâmica. E como eu disse na última vez (lição 6), todos estamos apenas interessados em atividades em yogāsanas, como eu fiz isso, como eu fiz aquilo, e nós apenas queremos a atividade do corpo. Enquanto para BKS Iyengar, todo āsana se tornaria um espelho. Um espelho refletindo pensamentos, espelho refletindo “pensar”, espelho refletindo “pensador”. E ele colocava os āsanas sobre a bigorna, forjava-os, moldava-os, esculpia-os, cultivava-os e temperava-os. É isso que tem que acontecer no yoga essencial. O yoga dele era um processo de meditação dinâmica. Mais do que aperfeiçoar nosso śīrṣāsana. Nós queremos fazer um śīrṣāsana certo, correto, perfeito, preciso. E como postura, nós tentamos fazer isso. Lutamos sinceramente em ver se nossa postura é certa, correta, perfeita, precisa. Nós mal temos uma pista do que o āsana faz com nossa subjetividade, com nossos instrumentos, nossa mente, consciência, psique, nós não nos damos conta disso. Enquanto em yogāsanas, eles fazem muito. Mais do que você faz no āsana, o āsana faz em você. Quando ele faz muito em você, o que é você? Você como pensador, você como pensar, você como loco de pensamentos. Isso é svādhyāya. No yoga do Guruji, existia essa meditação dinâmica, que precisamos tirar uma lição de como fazer com que nosso processo seja similar, que seja uma meditação dinâmica, onde nós não apenas tentemos aperfeiçoar uma postura, moldar e esculpir a postura, onde nós vamos além disso até yogāsana. Por isso, venho dizendo a vocês que posturas e āsanas são diferentes.”




24 de abril de 2020

Invocação a Patañjali

No início de cada uma de nossas aulas de yoga invocamos o mestre Patañjali, compilador dos Yoga Sūtras, alicerce sobre o qual B.K.S. Iyengar construiu sua pesquisa e pratica de yoga e que atualmente norteia os milhares de professores e praticantes do método Iyengar ao redor do mundo.

yogena cittasya padena vācāṁ
malaṁ śarīrasya ca vaidyakena /
yo'pākarot taṁ pravaraṁ munīnāṁ
patañjaliṁ prāñjalir ānato'smi
ābāhu puruṣākāraṁ śaṅkha-cakra-asi-dhāriṇam
sahasra-śirasaṁ śvetaṁ praṇamāmi patañjalim //
hari om


tradução adaptada:
Inclino-me perante o mais nobres dos sábios, Patañjali, que nos deu o yoga para serenidade da mente, gramática para clareza da fala, e medicina para manter o corpo limpo. Inclino-me diante de Patañjali, encarnação de Ādiśeṣa coroado por mil cabeças, cujo corpo superior tem forma humana com quatro braços, que segura uma concha (śaṅkha) e um disco (cakra) com duas mãos e a espada do conhecimento (asi) com a terceira, e que agracia os sādhakas com a quarta.

8 de abril de 2019

aulão de Iyengar Yoga no dia 27/4

Reserve a data! Em 27 de abril, teremos o 1º aulão do ano e o tema é: "construindo fundações firmes e estáveis nas posturas em pé.


Venham praticar com a gente! As vagas são limitadas. Informações: dani@shalarosa.com.br ou (11) 98263.3847.

24 de agosto de 2018

Grupo de Estudos dos Yoga Sūtras de Patañjali

VAMOS ESTUDAS JUNTES!

É com muita alegria que daremos início em setembro a um grupo de estudos semanal dos Yoga Sūtras de Patañjali.
Yoga é uma das seis Escolas de pensamento ortodoxo da Índia e os Sūtras de Patañjali são seu texto de referência.
Este profundo e rico estudo da psique humana compilado por Patañjali há mais de 2 mil anos é a base de todo yoga praticado atualmente. 
A cada semana estudaremos um tema e alguns sūtras relacionados, possibilitando assim a presença em encontros avulsos.

Quando A partir de 3 de setembro. Toda 2ª feira, das 15h30 às 16h30.

Investimento R$50 mensais para alunos do Yoga Shala Rosa e R$70 para não alunos. Encontro avulso: R$ 15 (para alunos) e R$ 20 (não alunos).

Interessados entrem em contato pelo What’sApp 98263.3847 ou e-mail dani@shalarosa.com.br




2 de julho de 2018

Sobre intensidade da pratica de yoga e os tipos de praticantes

Depois da aula do último sábado, surgiu uma conversa sobre a relação entre a intensidade da pratica de yoga e a obtenção de seus benefícios. Me lembrei que Patanjali correlaciona a velocidade e possibilidade de alcançar a meta do yoga com o tipo de praticante e a intensidade da pratica de cada um (YS I.21 e I.22). 
Vejamos o que Patanjali diz de acordo com a tradução e comentários de BKS Iyengar em “Light on Yoga Sutras os Patanjali”.

I.21 O objetivo está próximo para aquele que é supremamente vigoroso e intenso na prática.  

Samadhi (objetivo do Yoga segundo Patanjali) é alcançável para aquele que é honesto e puro de coração, entusiasmado, intenso e supremamente energético. 
Este rapidamente alcança o mais alto objetivo do yoga, auxiliado também por suas virtudes residuais acumuladas. No entanto, às vezes mesmo um aspirante intenso pode se tornar leve ou médio, lento ou moderado, em sua pratica.
No Shiva Samhita, capítulo V.16, aspirantes são categorizados como fracos, moderados, afiados em compreensão e vigorosos, e como tendo energia colossal e supremo entusiasmo.

I.22 Existem diferenças entre aqueles que são leves, medianos e “afiados” em sua prática.

Sadhakas (praticantes) são de diferentes níveis de ânsia (de aprender) e intensidade. Para eles, o objetivo é limitado no tempo, dependendo do seu nível de pratica.
Este sutra amplifica ainda mais a distinção entre iogues cuja pratica é fraca, média ou aguda, e que progridem de acordo com o nível de sua prática.
Estes tipos podem ser subdivididos ainda mais. Por exemplo, um sadhaka interessado (afiado) pode ser fraco ou moderadamente ou intensamente interessado. Subdivisões semelhantes podem ser feitas dos tipos médio e fraco. O objetivo do yoga está próximo ou distante de acordo com a ânsia e o esforço de cada um...

Concluindo: hoje em dia, muito poucas pessoas praticam yoga ansiando obter samadhi ou a “transcendência”, mesmo assim, não podemos desconsiderar os ensinamentos de Patanjali. Os motivos e objetivos da pratica de yoga são muitos e pessoais (obter melhor qualidade de vida, dormir melhor, não sentir dores físicas ou emocionais, cultivar uma mente mais tranquila e silenciosa, se relacionar melhor com os outros etc). Quaisquer que sejam as suas metas, vale ter em mente que a constância* e a intensidade da prática são diretamente proporcionais a obtenção delas. 
Por isso, bora abrir o mat e praticar!

*Sobre constância na pratica ler YS I.12, I.13 e I.14. Leia também neste blog: Sobre Abhyasa e Vairagya, de 30 de abril de 2014.  

20 de maio de 2017

zen na vida real



Meu filho completou 1 aninho e a Monja Coen realizou para ele a Cerimônia da Sabedoria Perfeita. Não foi a primeira vez que minha casa cedia essa linda cerimônia com a Monja Coen e uma assistente. A primeira vez foi há uns 12 anos para o filho de uma amiga querida em uma outra casa onde eu morava na época. Depois, há um ano e meio para minha afilhada já na minha casa atual.


Como das outras vezes, foi muito lindo! Meu bb ficou encantado com tudo aquilo; se jogou nos braços da Monja sem o menor pudor e queria tocar o livro da Sabedoria Perfeita.

Reencontrar a Monja e ouvi-la recitando o Mantra da Sabedoria Completa me fez lembrar de um breve tempo há uns 10 anos quando eu acordava bem cedinho e ia a pé até o antigo templo para recitar esse mesmo mantra com ela e alguns outros discípulos e praticantes. Bateu saudade da pratica de Zazen e me fez voltar a levantar da cama mais cedo para meditar por 20 minutos.

Mas com bb pequeno a tarefa está se mostrando bem mais difícil do que eu imaginava. Agora mesmo, ele despertou chorando... Alarme falso. Ele voltou a dormir.

Tenho acordado mais cedo e, quando consigo sair da cama sem despertar o bb (desde os 3 meses de vida, fazemos cama compartilhada), vou praticar. Às vezes, dá, outras, não. Às vezes, o bb desperta querendo mamar e preciso interromper a pratica e outras vezes, nem consigo sair da cama. Às vezes, o bb dorme tranquilo com a barriguinha cheia aninhado nos braços da outra mãe dele, mas minha mente, agitada, não para um instante e não consigo permanecer imóvel pelo tempo estipulado.

Acho que agora vai ser assim mesmo. Cada dia, de um jeito, cheio de imprevistos e mudanças de planos. Do jeitinho que a vida é! Mas acredito que estou no caminho correto. Essa noite, agorinha mesmo, são quase 7 horas da manhã, despertei de um sonho com a Monja Coen. Eu comentava com ela que tinha voltado a acordar de madrugada para praticar Zazen. Ela esboçava um sorriso de aprovação e saia para atender a um pedido de outra pessoa do sonho e não esperava para ouvir minhas explicações e reclamações sobre a dificuldade de manter uma pratica diária e constante. Muito sábia a Monja Coen!

Não tive tempo de reclamar e logo me levantei da cama.

Mãos em prece _/\_



8 de abril de 2017

caderninho de notas_2004

Terra Solar Vermelha
Lua Elétrica do ano Mago Espectral Branco

Tinha pensado em acordar muito cedo para comprar castanhas-do-pará no mercado. Não coloquei despertador, mas acordei cedo (nem tanto) e um pouco aflita.
“O que fazer?” Planejando as ações, uma preocupação me beliscou de leve o timo. O Magnólio veio falando de fazer outra entrevista... Faz assim, faz assado. "GENTE, EXCUSE ME, eu tô indo embora em poucos dias..."
Aí lembrei de uma historinha que a Ana me mandou. A mente está sempre (sempre!) no passado ou no futuro. Acalme sua mente, respire, descanse... Faça as coisas atentamente. ATENÇÃO!! Atenção no aqui e no agora, no presente, não tente guardar o sonho, não planeje, apenas deixe as coisas acontecerem e preste 100% de atenção ao agora. “Just be here & now, alert. That’s it!”
Foi o que fiz.
É como se estivesse meditando durante o dia todo... Às vezes perco o prumo e me pego planejando ou me preocupando. “A Era do Gelo é animação, só vai ter criança... Será que é mal eu ir sozinha? Calma minha mente querida e preocupada. Just relax! Acalme-se, tá tudo certo, certíssimo. Filme infantil, a San disse que é lindo, o Gui ama, vai lá, vai!”
Fui. E foi show!
Um menininho muito lindo sentou ao meu lado e foi logo mandando:
“A senhora veio sozinha? Porque eu vim com minha irmã. Vou morar em Roraima. Já vi o filme 3 vezes. Tem um esquilinho. Roraima é legal. Já fui 3 vezes...”
O outro que chegou já com as luzes apagadas e também já tinha visto o filme no vídeo, ficava contando a estória pra mim. E eu morrendo de rir na hora de rir e segurando as lágrimas nas horas de chorar. Felicidade!
Sai e fui comprar verduras para preparar um couscous de almoço. Zanzei pra lá e pra cá, maxixi, cebola, beterraba, quiabo, berinjela... Esmalte, sabonete, pedra pomes, o que? É aquela pedra/lixa que minha mãe ficava esfregando na sola dos pés nas tardes ensolaradas da minha infância. A avó e a manteiga de lata, também comprei.
Fiquei na fila do caixa rápido e um senhor atrás de mim pergunta: “Que horas tem?” Não tenho, mas alguém responde “11 horas”. Ele diz que precisa estar às 11h30 em algum outro lugar, conversamos da minha tatuagem, a moça de trás elogia, muito, a tattoo. Eu ofereço a ele meu lugar na fila, afinal ele tem horário e eu não.
Aí ele começa um papo sobre energia nuclear, sobre evolução, sobre ilusão. “Hã?”
“E de onde vem o senhor pensar essas coisas? Que bom, que sabedoria!" Ele continuou, “no Fantástico passou que a gente só usa 10% do cérebro”, e eu concordei. Eu não podia deixar de dizer: “a gente assim tão insignificante e ainda tem gente com o rei na barriga, né?”
Uau, um senhor interessante aquele! Poucos dentes na boca, só os da frente. Feições de índio, cabelos cinza, baixo e sábio. No supermercado, em Santarém, comprando um shampoo com o nome anotado em um pedacinho de papel. Tinha que ir correndo pro outro mercado procurar um outro produto que não tinha achado no Sandis.
Obrigado! 
Adeus!

21 de dezembro de 2016

Que venha 2017!

2016 encerra um período de 36 anos regido por um mesmo astro segundo a Astrologia. A soma dos números dá 9 o que para a Numerologia também representa o fim de um ciclo. Esse, sem dúvida, foi um ano de muitas mudanças!  

Em 2016, mudamos de cidade, de país ou reinventamos o jeito de viver em Sp. Fizemos filhos, parimos e acompanhamos as crianças crescendo. Terminamos relacionamentos de longa data e renovamos os votos de nossas uniões com mais maturidade. Conhecemos o yoga e retornamos a pratica regular. Demos um tempo. Mergulhamos nos aspectos mais sutis da pratica e reafirmamos que este é mesmo o caminho a seguir.


Sinto-me muito feliz e honrada por termos vivido todas essas coisas juntos. Agradeço imensamente ao Yoga pela oportunidade de ter me aproximado de vocês ou ter aprofundado ainda mais nossa amizade. Segundo nosso Guruji, B.K.S. Iyengar, “o Yoga precisa ser experimentado”. E, definitivamente, experimentar junto é muito mais gostoso.

Feliz Natal e um 2017 repleto de trocas, novas amizades, conexões e experiências. 

Boas práticas!

As aulas aqui na Shala Rosa reiniciam no dia 10 de janeiro. 


_/\_ mãos em prece


Baby Adho Mukha Svanasana



Cross bolsters Setubandha Sarvangasana



Variação de Supta Padangusthasana durante prática pessoal



Virasana com bb



Viparita Dandasana na baleia



variação de Ardha Chandrasana



Viparita Karani



Setubandha Sarvangasana com 2 cadeiras



Setubandha Sarvangasana no 3ª trimestre da gravidez


27 de outubro de 2016

relato do parto do meu filho Benjamim

Finalmente sentei pra escrever como foi o parto do Benjamim. Já faz quase 6 meses e daqui a pouco já preciso escrever outro relato, o sobre a amamentação exclusiva em livre demanda!

Tinha ficado triste por não conseguir fazer o relato próximo ao parto com as memórias ainda frescas. Mas hoje me dei conta que todos os detalhes ficaram pra trás e só restou o que realmente me marcou. E o mais interessante é que não lembro da dor.

Em 6 de maio, um dia após o parto, a força e a dor da fase expulsiva, não saiam da minha cabeça. Lembro de ter considerado: ‘será que encararia outro parto sem analgesia se tivesse outro filho?’ Mas passados uns dois dias, eu já estava completamente “esquecida” e disse pra Ana que se tivéssemos outro neném, o parto seria novamente aqui em casa. “Claro, por que não?”, acrescentei.

Sobre essa questão (que para a maioria das pessoas é A questão) posso dizer que, como todo mundo já sabe, parir dói, e muito. Mas seria necessário inventar outra palavra porque “dor” não dá conta do recado. A nova palavra deveria denotar muito além do que vem escrito no dicionário Aurélio: “sensação desagradável, variável em intensidade e em extensão de localização, produzida pela estimulação de terminações nervosas especializadas em sua recepção”. Acrescentaria muitos outros significados como empoderamento, transe, força, esforço intenso, comunhão, entrega, rito de passagem, e até, por que não, prazer.

Estava com 41 semanas e 5 ou 6 dias. Ou seja, já nos 45 minutos do 2º tempo do jogo (seguindo o padrão da minha gestação aos 43 anos, Benjamim nasceu e eu tenho 44!!!). No final da 40ª semana, comecei a fazer alguns procedimentos alternativos para estimular o trabalho de parto. E eu brincava com meus alunos que o neném ia nascer no meu estúdio no final de uma das minhas aulas de yoga (continuei dando aulas até a última semana).

Das “medidas alternativas”, a 1ª e crucial desencadeou-se a partir de uma conversa com a Betina Bittar, minha obstetra-parteira-xamã, que me chamou na chincha dizendo que se eu quisesse mesmo tentar o parto domiciliar precisaria começar o trabalho de parto espontaneamente e que estava tudo certo com o neném, ele estava saudável, a termo, prontinho pra nascer. A pergunta era: será que a nova mãe estava pronta pra vir à luz? "Talvez ainda não", respondi. Minha gravidez foi deliciosa e eu estava superapegada àquela barrigona... Caiu a ficha, fui para casa e tive uma “conversinha” com o neném, pedi a ajuda dele e me comprometi a ajuda-lo também. Conversei comigo também, não dava mais para adiar e a nova jornada tinha que começar.

É muito louco porque fiquei tanto tempo esperando e me preparando pra engravidar... Foram 3 anos e meio de tratamento com algumas tentativas de inseminação artificial e FIV (in vitro) e durante esse tempo foquei todas as minhas energias em ficar grávida e não pensava muito em quando o neném nasceria. Durante a gestação, li bastante sobre o parto, fui estudar e me informar sobre as praticas de partos humanizadas, mas a gravidez ainda parecia um sonho bem gostoso, daqueles que a gente não quer acordar.

Já fazia umas 3 semanas que estava praticando uma sequência de posturas de yoga especialmente preparada para o último mês da gestação e que, segundo o boato, lá na França, no estúdio da professora que criou a sequencia, muitas alunas saiam direto dessa aula pro hospital para ter o neném.

Na semana seguinte às conversas definitivas (com o neném e comigo mesma), passei por sessões de acupuntura e monitoramento das condições do baby dia sim, dia não, e consultas diárias; a Betina fez umas manobras para “descolar” minha placenta, e até apelei tomando óleo de rícino.

Na 4ª feira, dia 4, quando tudo parecia não funcionar efetivamente, tomei uma “vitamina-bomba” com óleo, mamão, linhaça + tudo o que solta o intestino pra ver se a estimulação dos movimentos peristálticos despertava as contrações uterinas.

Funcionou, um pouco, mas lá pelas 19h, as contrações foram diminuindo e nessa noite fui dormir desanimada pensando que no dia seguinte teria que recomeçar tudo de novo e que meu prazo estava se esgotando (se a gestação passasse das 42 semanas, eu iria me internar no hospital para estimular as contrações com ocitocina sintética, levando por terra o sonho do parto natural em casa).

Felizmente, estava enganada! Às 4 da manhã do dia 5 de maio, acordei com cólica, uma cólica forte, e na hora percebi que o meu trabalho de parto tinha começado. Até então tinha dúvidas se saberia quando o trabalho de parto de fato começou, mas no meu caso, não podia ser outra coisa. Aquela “cólica” era diferente de tudo que já tinha sentido anteriormente.

Faço uma pausa aqui para limpar meus olhos que estão cheios de água. Fiquei tão feliz quando senti que o trabalho de parto estava começando, em casa, naturalmente! O Benjamim está brincando no colo da outra mãe dele, a Ana, e é impossível não parar um pouco pra rir junto com eles.

De volta ao relato: em seguida, acordei a Ana e ela ligou para a Mari Amoroso (que sobrenome mais lindo, especialmente para uma doula!), que já se pôs a caminho e me aconselhou a entrar no chuveiro bem quentinho.

Nesse ponto, já estava tudo muito confuso. Eu já tinha entrado na “partolândia”, em um estado alterado de consciência. E o mais legal é que eu não tinha tomado nada, nenhuma droga, e estava completamente consciente: era eu mesma ali em contato com a natureza mais instintiva; era eu mesma ali correndo com os lobos! O tempo já estava diferente, e o espaço também. Nesses poucos metros quadrados do meu quarto, banheiro e hall já cabia todo o universo, todo o mistério da vida e toda a energia infinita do amor. Eu estava prestes a parir!

A Ana, sempre presente ao meu lado, me ajudou a sentar com bastante dificuldade no chão do box e me lembro da sensação da água quente que escorria pelas minhas costas. Uma delicia!

A Mari chegou às 6h e ligou pra Betina que chegou lá pelas 9h (foi o que me contaram no dia seguinte) para uma primeira avaliação. Não sei como estava minha dilatação, mas a Betina decidiu ficar.

Lembro da pressão que as mãos delas faziam contendo a minha bacia que parecia que iria romper-se quando vinham as contrações, da água quente escorrendo pelas minhas costas enquanto eu sentava no vaso sanitário e do alivio que ela trazia, lembro da voz doce da Betina dizendo que tudo estava bem e que eu também estava me saindo muito bem enquanto monitorava os batimentos cardíacos do bebe. Lembro da Ana ali comigo segurando minhas mãos compartilhando o silêncio durante as contrações e as risadas de alívio nos intervalos. Lembro de ouvir conversas no andar de baixo, quando, uma a uma desceu pra comer e eu ali sem fome nenhuma, nem sede, nem nada. Em certo momento, a Mari me trouxe mel e foi delicioso dar umas colheradas em algo tão doce e cremoso.

Lembro dos meus gemidos do início, bem graves pra soltar o maxilar e a bacia. Lembro dos gemidos que foram virando gritos e que no final eram os berros mais altos e profundos do mundo. E assim o tempo foi passando, o sol, andando no céu, foi manchando o quarto com diferentes sombras e eu balançando pra lá e pra cá na bola de pilates.

Em dado momento, com o trabalho de parto bem adiantado, fiquei sabendo que a cabecinha do neném não estava na posição de descida e que talvez precisasse de um pouco mais de tempo. Bateu um desespero porque lembrei do parto de uma amiga que durou mais de 30 horas porque o neném estava com a cabeça mal posicionada. Achei que aconteceria comigo a mesma coisa e, à aquela altura eu já estava completamente exausta. A Mari me acalmou dizendo que o parto da minha amiga era o dela e que estávamos no meu. E essas palavras foram suficientes pra que eu seguisse em frente com calma. Li tanta coisa sobre parto e tantos relatos, todos tão singulares, e nada podia descrever o que estava acontecendo ali, no meu. Pra ajudar o Benjamim a se posicionar, eu agachava quando começava a contração e nos intervalos, dançava calminha rebolando. Em uma dessas descidas pra posição de cócoras, acho que minha bolsa estourou, mas não foi aquela aguaceira toda, só um pouco de líquido translúcido.

Tem um hiato de memória aqui e já me vejo no hall sentada no banquinho de parto que a Betina trouxe. Compramos uma banheira de parto umas semanas antes, mas acabamos nem montando. Eu ia precisar fazer bastante força no expulsivo e o banquinho era o ideal. A Ana ficou sentada atrás de mim e me ajudava a fazer a báscula da bacia. Eu estava tão dolorida e pesada que não conseguia mover minha pelve sozinha. Então, lá estava a Ana parindo juntinho de mim. Foi muita força que tive que fazer. Muito mais do que pensei ser capaz.

Lembro da Betina dizendo pra eu só fazer força durantes as contrações fortes para não gastar minhas energias desnecessariamente, lembro de olhar pro espelhinho no chão entre minhas pernas e de quase não acreditar que o que eu via era o cabelinho do Benjamim, lembro de gritar sem deixar o som sair para ser mais forte, lembro de fazer muita, mas muita força empurrando os pés no chão, lembro de sentir o corpinho do neném passando no canal vaginal e lembro da Betina dizendo pra eu fazer só mais uma força. Finalmente ouvi bem baixinho, como se eu estivesse longe dali, que a cabecinha tinha saído! Estava tão exausta e achei que precisaria fazer mais uma força para que os ombros também saíssem, mas em um piscar de olhos estava com meu filho no colo.

Ele nasceu chorando muito, pra alegria do Ricardo Coutinho, o pediatra que tinha chegado há pouco. Meu filhinho chorando nos meus braços, coberto com fraldinhas quentes, todo lambuzado, tão lindo! Ele custou a abrir os olhos, só um pouco mais tarde quando parou de chorar e olhou pra gente, pra mim e pra Ana que também chorava muito. Eu, em estado de choque, não sentia mais dor nenhuma, desconforto nenhum. Só sentia o calor do bebe em meus braços, uma sensação de missão cumprida e muita admiração por aquele bebezinho tão lindo e forte que acabara de vir à luz!

Depois de um tempo, que não faço a menor ideia de quanto, me levaram pra minha cama no quarto ao lado. Acho que me carregaram no colo com o Benjamim ligado a mim, ainda com o cordão umbilical pulsando. Ficamos ainda um tempão na cama unidos pelo cordão. Era tanta alegria, tanto amor! Mais tarde, a Betina veio checar se a placenta já estava solta e senti ela saindo sem esforço nenhum. A Ana cortou o cordão umbilical, que já não pulsava mais, com um bisturi.

No hall, eu acho, a Mari e a Ana fizeram prints da placenta e eu pedi pra comer um pouco dela. Há mais de 15 anos sou vegetariana, mas senti que precisaria comer ao menos um pedacinho desse órgão tão maravilhoso que nutriu meu bebe durante a gestação e que já não tinha função alguma. Senti que precisava, tanto daquela dose extra de ferro, quanto de encerrar aquele ritual comendo carne crua. Afinal eu era a loba selvagem que tinha acabado de dar à luz!

Algumas outras curiosidades:
Não tive nenhuma laceração no períneo durante o parto.  Me preparei fazendo Epi-no e massagem perineal diariamente a partir da 32ª semana sob indicação da fisioterapeuta e educadora perineal Thati Menendez. 
O Benjamim não pegou o peito de cara e a consultora em aleitamento materno Fabíola Cassab, fundadora do Matrice - Ação de Apoio à Amamentação, veio em casa no dia seguinte ao nascimento e com toda a paciência e amor do mundo nos ajudou me ensinando a pega correta e me fazendo compreender os bloqueios que estavam me atrapalhando no processo. Hoje o Benjamim mama no peito exclusivamente e em demanda livre (o que nos deixa muito felizes e eu extremamente realizada!). Não oferecemos chupeta pra ele, nem nenhum outro tipo de bico artificial.
A partir dos 3 meses, decidimos dormir em cama compartilhada e tem sido maravilhoso! Agora, o Benjamim mama muito mais à noite e eu e a Ana dormimos muito melhor. Fora que é delicioso estar pertinho dele a noite toda!













fotos Mariana Amoroso (exceto a última que foi a Ana quem tirou)


(Da esq. pra dir.) Ana, Mari, eu com Benjamim no colo, e Betina 



Sinto muita gratidão e carinho pela equipe: Betina Bittar, Mariana Amoroso e Ricardo Coutinho. 

Os agradecimentos especiais vão à Mari, principalmente por me incentivar a correr atrás do meu sonho de ter meu bebe em casa, e à Betina por torna-lo possível. Tenho plena certeza que o Benjamim também agradece por ter sido recebido de maneira tão amorosa aqui na casa dele.