palavras do Guruji

Dani na estrada

viagens pelo mundo afora e pelo universo dentro de mim.



"Você não precisa viajar a um lugar remoto para buscar a liberdade; ela habita seu corpo, seu coração, sua mente, sua Alma. A emancipação iluminada, a liberdade, a pura e imaculada felicidade estão a sua espera, mas você precisa escolher embarcar na jornada interior para descobri-las."
B.K.S. Iyengar em Luz na Vida

27 de novembro de 2011

Pranayama: trampolim em direção a vida espiritual


Começamos hoje a última semana de Novembro e em nossa pratica de ioga, iniciamos a semana de pranayama.
Em sânscrito, prana é energia vital e ayama é criação, distribuição e manutenção. Logo, pranayama é a ciência da respiração, que leva a criação, distribuição e manutenção da energia vital.
B.K.S. Iyengar em seu livro “A árvore do Ioga” faz uma analogia entre pranayama e as folhas das árvores. Ele diz: “como as folhas que arejam a árvore e fornecem nutrição para que seu crescimento seja saudável, também o pranayama alimenta e areja as células, os nervos, a inteligência e a consciência do sistema humano.” Bonito, não?
Traduzo aqui um artigo sobre pranayama da revista Yoga Rahasya vol. 18 nº 3, 2011.

Pranayama: trampolim em direção a vida espiritual

Quando somos ensinados a fazer pranayama, começamos observando nossos pulmões. Dizem a você que exale. Por que exalar primeiro? Você rastreia a origem do seu corpo interior enquanto exala. No momento em que você exala, alcança o âmago. O âmago é a força vital. Todos os sentidos alcançam esse núcleo.

Por exemplo, temos um copo cheio de água. Posso ainda usá-lo? Já está cheio. Preciso esvaziá-lo primeiro. Quando primeiro exalamos, esvaziamos tudo dentro, de modo que a carga da mente, que detém apertado, é esvaziada. Quando você começar a inalar, observe o formato dos pulmões.

Posso ainda usar esse copo? Já está cheio.
Preciso esvaziá-lo primeiro. Quando primeiro exalamos, esvaziamos tudo dentro

Como os pés devem estar estáveis nos asanas, a coluna precisa estar estável durante os pranayamas. A coluna tem a função dos pés em uma postura sentada. A base da coluna se torna os pés. Assim é como a discriminação (habilidade de escolher o melhor percebendo pequenos detalhes) começa. Pranayama não é apenas sobre inspiração e exalação se você nem sabe como se sentar. A coluna deve estar estável.

em uma postura sentada, A coluna tem a função dos pés.
A base da coluna se torna os pés. A coluna deve estar estável em pranayama

O segredo do pranayama:

Quando você inspira, a inspiração começa no centro e depois move-se para os lados. Se você observar os pulmões, vai ver que eles estão apenas metade cheios. O diafragma normalmente se movimenta verticalmente. Em pranayama, ele se move horizontalmente. A ciência médica ainda não sabe disso. Precisamos deixar o diafragma como um piso plano. Se o piso é inclinado, não podemos andar. Você consegue andar somente em um piso plano e reto. Da mesma forma, você tem que tornar seu diafragma plano.

O diafragma normalmente se movimenta verticalmente. Em pranayama, você deve move-lo horizontalmente

O diafragma é fixado nas costelas flutuante. Com a inspiração, a respiração tem que mover-se a partir da superfície interna. Temos 12 pares de costelas. Quando você inspira, você tem que sentir se a respiração está tocando costela por costela e ao tocá-las, se está criando espaço entre elas através dos músculos intercostais. Quando a respiração toca esses espaços é uma inspiração completa.

Você precisa aprender que isso é o ponto de partida do conhecimento espiritual. Esse copo está cheio de água. Se eu esvaziar a água, ele estará vazio, mas cheio de ar. No momento que colocarmos água, ela entra e o ar sai. Pergunte a si mesmo: quando você inspira, o que dá espaço para  respiração entrar? O que sai quando a respiração entra?

Quando você inala o âmago do ser sai para que a respiração entre. Isso é conhecido como inspiração - trazer energia para dentro. A consciência (awareness) dá espaço para a energia entrar. Em linguagem filosófica, a alma sede espaço, o ser sede espaço para a respiração entrar. Da mesma forma que o ar sai do copo, o ser se move para a respiração entrar. No fim da inspiração, o ser e a respiração tocam as extremidades. Quando isso acontece, temos kumbhaka – retenção. Kumbhaka não significa apenas prender a respiração. Kumbhaka nos faz entender a comunhão da respiração com o ser. Enquanto a respiração está unida com o ser, tem-se o verdadeiro kumbhaka.

QUANDO INALAMOS, O ÂMAGO DO SER SAI PARA A RESPIRAÇÃO ENTRAR

KUMBHAKA É COMUNHÃO DA RESPIRAÇÃO COM O SELF

QUANDO EXALAMOS, O AMAGO DO SER VAI PARA SEU ESTADO ORIGINAL

Pranayama é o trampolim para a vida espiritual.

Asana prepara você para pranayama e pranayama te guia em como fazer o asana. Depois de uma inspiração completa, você segura a respiração. É como o encontro entre amante e o ser amado, que na ciência do ioga chamamos do encontro entre prakrti e purusha. Dizemos, exale. E quando exalar, veja a beleza disso. Você solta a respiração e ao soltar a respiração, o âmago do ser vai para seu estado original. Você não deve olhar para a respiração saindo, mas observar como o âmago do ser está retrocedendo para o corpo. Quando a respiração está saindo e quando a alma alcança sua morada, você não pode exalar mais. Isso significa que prakrti mudou-se junto com a alma perto da morada do ser. Exalação é a união da natureza com a alma. Na inalação, o ser expandindo-se, dando espaço para a respiração entrar é purusha. Na retenção da inalação o ser e purusha são um. Na exalação é o oposto. A natureza entra em contato com o ser. Isso é pranayama.

Pranayama tem três movimentos. Inalação, retenção e exalação. É muito interessante perceber a semelhança entre pranayama e o criador, o protetor e o destruidor. Inalação é o gerador de energia conhecido como Brahma. O protetor é Vishnu. Você segura a respiração fazendo com que essa energia proteja totalmente o império da alma. O trabalho de kumbhaka é proteger, por isso é conhecido como Vishnu. O destruidor é conhecido como Maheshwara-Shiva. Se você prender a respiração viciosa, você morre. Da mesma forma, exalamos para que o ar que não é bom para a saúde seja jogado fora. Pranayama cobre Brahma, Vishnu e Maheshwaha. Essa é a beleza do pranayama.

Pranayama tem três movimentos: Inalação, retenção e exalação. tem sEMELHANÇA COM O CRIADOR (BRAHMA), O PROTETOR (VISHNU) E O DESTRUIDOR (SHIVA).

Nós armazenamos energia depois de aprender e de fazer pranayama. Nós armazenamos água e em seguida vamos irrigar a terra. Da mesma forma, pranayama armazena energia e essa energia armazenada deve ser utilizada. Essa energia armazenada é então utilizada para suprir o corpo todo.

A pratica de asanas faz dois trabalhos. Antes de pranayama, faz os pulmões elásticos para armazenar energia como um reservatório. E depois dos pranayamas, levam essa energia armazenada aos vários sistemas do corpo. Assim você guia a respiração em como mover-se nos asanas depois de aprender pranayama. É assim que asana e pranayama trabalham complementarmente um ao outro. Em pranayama, o campo e o conteúdo do campo andam juntos como marido e mulher andam juntos. Nesse estado, você está em meditação e não apenas sentado quieto.

Silêncio ativo é meditação. Prayatna saithilya ananta samapattibhyam é o efeito de asana. Quando Patañjali usa as palavras prayatna saithilya – quando a pratica de esforço torna-se sem esforço você experimentará o estado de infinito. Em uma frase o efeito é indicado como tato dvando anabhigatah – as dualidades desaparecem.

A mente desempenha um papel duplo. A mente é como um oficial de relações públicas em nosso sistema. O trabalho desse oficial de relações públicas é satisfazer o cliente e ao mesmo tempo satisfazer o proprietário. A mente tem um papel semelhante. O que é isso? Ela tem que satisfazer as demandas dos sentidos da percepção e curtir os prazeres do mundo e por outro lado ela quer agradar o proprietário, o ser. De acordo com Patañjali, ela desempenha papel duplo. Ela quer satisfazer os sentidos e ela também quer satisfazer o ser. Então a pratica de asana faz com que os sentidos de percepção movam-se para dentro e a mente então “dá meia volta” na pratica. Assim que “dá meia volta”, ela se esquece do outro lado, do lado de fora. Patañjali diz que assim a dupla função da mente desaparece e apenas uma mente única permanece. Por tornar-se uma mente única, torna-se a mente cósmica e universal em cada indivíduo. Isso é o que o yoga nos ensina.

Transcrição editada de uma palestra do Guruji BKS Iyengar em Pequim, China, Junho 2011.