palavras do Guruji

Dani na estrada

viagens pelo mundo afora e pelo universo dentro de mim.



"Você não precisa viajar a um lugar remoto para buscar a liberdade; ela habita seu corpo, seu coração, sua mente, sua Alma. A emancipação iluminada, a liberdade, a pura e imaculada felicidade estão a sua espera, mas você precisa escolher embarcar na jornada interior para descobri-las."
B.K.S. Iyengar em Luz na Vida

18 de abril de 2011

AcroYoga

Já ouviu falar? Segue a definição do site oficial (http://www.acroyoga.org/about.cfm)
“O AcroYoga combina a sabedoria espiritual do Yoga, a bondade amorosa da Massagem Tailandesa e o poder dinâmico da Acrobacia. Essas três linhagens antigas formam a base de uma prática que cultiva a confiança, cumplicidade e diversão.”

Onde: Pratique Yoga, escola da minha querida amiga Nicole Rodrigues e da Adarsha.
Quando: Sábado, 16/4/2011.
Com quem: Surya Mayi (grande amiga das antigas) e Justin Bench.

Pra começar, mantras e alguns asanas. Depois nos dividimos em trios de acordo com altura e peso: um de nós é a base, o outro, o voador e o terceiro é o anjo, que garante a segurança e a comunicação. Todos nós experimentamos as três funções, e todas elas são muito bacanas! Foi incrível, tanto dar a estrutura para minhas companheiras voarem, quanto fazer Dhanurasana no ar ou estar ali pra garantir o vôo delas.
Tinha ouvido dizer — confesso que sem entender direito — que Acro Yoga cultiva o senso de comunidade. Lá no workshop, logo depois de termos nos dividido em trios, Justin veio com uma explicação bem interessante: “dois formam uma relação e três, o começo de uma comunidade”. E foi muito bacana quando acabou o workshop, senti uma conexão enorme com aquele grupo de pessoas — algumas delas velhas conhecidas, mas outras que tinha acabado de conhecer três horas antes.


As fotos são de Juliana Cibim, que está voando de camiseta preta

17 de abril de 2011

Só isso, tudo isso

Um dia desses, uma amiga comentou que seu maior desafio é conseguir meditar. Fiquei pensando nisso...
Lembrei das palavras da querida mestra Karin O'Bannon durante o primeiro retiro que fiz com ela em Florianópolis há uns dois anos. Na programação, todos os dias de manhã antes da prática de pranayama, dispúnhamos de 40 minutos facultativos para meditação. Isso é, aparecia quem quisesse e a Karin não conduzia a pratica, nem mesmo participava da meditação.
No começo da primeira pratica de panayama, logo depois da invocação à Patanjali, Karin falou sobre suas impressões sobre nossa “meditação” (coloco entre aspas, porque não acredito que alguém estivesse de fato meditando, estávamos treinando Dharana, concentração. Usamos a palavra Dhyana, meditação, tanto para o treino que nos leva à ela, como para ela em si).
Karin observou que depois de 40 minutos com as pernas cruzadas no chão muita gente estava “brigando” pra “meditar”, lutando pra manter o corpo ereto e a mente passiva...
Brigar pra conseguir passividade?
Acredito que durante o treino de meditação, como nos pranayamas, não deve haver luta. Se existe uma briga, já saímos completamente do estado receptivo que buscamos nessas praticas. Não é uma prova ou algo que devemos colocar um monte de imposições, intenções e tensões. Nesse caso, já estamos fora!
Apesar de não ensinarmos técnicas de meditação sentada na prática de Iyengar Yoga, para uma das minhas mais queridas alunas, abri uma exceção. No final de toda pratica, depois de um longo relaxamento final e depois de ter preparado bem as costas dela com os asanas, nos sentamos por 10 minutos em silêncio.
As costas não tocam o encosto da cadeira e mantemos a coluna ereta, ísquios bem apoiados no assento, pés no chão, mãos repousando sobre um cobertor dobrado para dar espaço para ombros girarem para trás e para baixo. Cabeça em linha com a bacia. Observamos a respiração e tudo que vier à mente sem tensão, sem julgamento. Com suavidade, conduzimos a atenção novamente para a respiração toda vez que percebemos que nos desviamos dela. E assim ficamos com a mente quieta, espinha ereta e o coração tranqüilo. Só isso, tudo isso!


Carminha, uma de minhas alunas mais entusiasmadas com o yoga, tem 83 anos

6 de abril de 2011

insight

Um dia, ela acordou e sentiu-se diferente. O despertador nem tinha tocado, faltava muito pra hora de acordar. Não teve pesadelo nem sonho, não sentiu vontade de fazer xixi, não ouviu som algum. Apenas acordou mais cedo. Apenas sentiu-se diferente.
Durante o café da manhã com o namorado não abriu a boca pra pronunciar palavra, apenas comeu pão e tomou um chá. Nem o jornal abriu. Não acariciou o gato malhado do vizinho, não disse bom dia pro porteiro, não pegou o ônibus pra faculdade. No meio do caminho a pé, resolveu dar meia volta e matar aula.
Parou na praça. Primeiro andou um pouco próxima às babás, bebês, e passeadores de cachorros. Depois sentou em um banco e ficou ali sentindo-se diferente.
No seu silêncio, ouviu alguns latidos, passos se aproximando e se afastando, fragmentos de conversas, chorinho de criança. Sentiu saudade de coisas que nunca teve: o cachorro carente louco pra passear; o bebê carequinha e fofinho; a casa no sítio no interior...
Ficou ali lembrando de tudo isso: das vacas pastando e galinhas ciscando. Lembrou das enormes mangueiras pintadas de manga e das jabuticabeiras “enverrugadas”. Sentiu a água fresquinha da lagoa cheia de peixes e se assustou com os gansos de cabeça rente ao chão prontos pra atacar. O touro Nelore com aquela “corcova”, o cupim, apareceu em passos lentos, despreocupado atrás de suas vacas.
Cupim. Lembrou da churrascaria na esquina do prédio onde mora e das gentes comendo cupins, picanhas, maminhas... Sentiu uma tristeza enorme. A saudade manchou-se de sangue. Sangue das vacas, porcos e aves nos matadouros, sangue nas mãos e nos olhos dos funcionários mal tratados na hora do abate.
Pensou que no dia seguinte tudo voltaria ao normal: acordaria com o despertador às 6, conversaria com o namorado, brincaria com o gato gorducho, daria bom dia, pegaria o ônibus, iria pra aula... Só não comeria carne nunca mais!

3 de abril de 2011

As oito pétalas do Yoga segundo B.K.S. Iyengar


O yoga tem 8 pétalas que se revelam gradualmente ao praticante. Consistem em disciplinas éticas externas (yama), observâncias éticas internas (niyama), posturas, (asana), controle da respiração (pranayama), controle e recolhimento dos sentidos (pratyahara), concentração (dharana), meditação (dhyana) e absorção no êxtase (samadhi). Chamam-se 8 pétalas porque se combinam como as pétalas de uma flor de lótus para formar um bonito todo.
(...) A jornada do yoga começa com os cinco mandamentos éticos universais (yama). Dessa maneira, aprendemos a desenvolver controle sobre nossas ações no mundo externo. A jornada prossegue com cinco etapas de autopurificação (niyama). Estas estão associadas ao nosso mundo interno e aos sentidos da percepção e nos ajudam a desenvolver a autodisciplina.
A 3ª pétala do yoga é a prática de posturas (yogasana). O asana conserva o vigor e a saúde do corpo, sem o que as chances de progresso são poucas. Também mantém o corpo em harmonia com a natureza. Todos sabemos que a mente afeta o corpo. Por que não tentar, sugere o yoga, fazer o contrário — acessar a mente por meio do corpo? (...) Em outras palavras, vamos tentar usar o asana para esculpir a mente. (...) dizemos no yoga que o sutil precede o grosseiro, ou seja, o espírito precede a matéria. Mas o yoga também diz que devemos primeiro lidar com o exterior, ou o mais manifesto — isto é, pernas, braços, coluna, olhos, língua, tato —, para desenvolver sensibilidade ao movimento interno. É por essa razão que o asana abre todo o espectro de possibilidades do yoga. Não pode haver realização espiritual e existencial sem o suporte do veículo encarnado da Alma, o corpo de carne e osso, desde os ossos até o cérebro. (...)
A 4ª pétala diz respeito às técnicas de respiração, ou pranayama (prana, energia vital ou cósmica; ayama, extensão, expansão). O alento é veículo da consciência. (...) Como a respiração acalma a mente, nossas energias ficam liberadas para desatrelar-se dos sentidos, voltar-se para dentro e lançar-se na busca interior com uma consciência mais aguçada e dinâmica. (...)
O recolhimento dos sentidos na mente (pratyahara) é a 5ª pétala do yoga, também chamada de eixo da busca interior e exterior. (...) Quando os sentidos da percepção se voltam para dentro, experimentamos o controle, o silêncio e a quietude da mente. Essa capacidade de aquietar e aos poucos silenciar a mente é essencial não apenas para a meditação e a jornada interior, mas também para que a inteligência intuitiva funcione de maneira útil e benéfica no mundo externo. (...)
As últimas três pétalas são concentração (dharana), meditação (dhyana) e absorção completa (samadhi), (...) ou o yoga da integração final (samyama yoga). (...)
Na escola aprendemos a prestar a atenção, mas não é a isso que se refere a concentração no yoga. Quando vemos um cervo na floresta, não dizemos: “veja, ele está se concentrando”. O cervo está em um estado de completa e vibrante percepção, em cada célula do corpo. É um engano comum achar que estamos nos concentrando porque fixamos a atenção em coisas instáveis, como uma partida de futebol, um filme, um romance, as ondas do mar, a chama de uma vela. (...) A verdadeira concentração é um fio de percepção contínuo. Descobrir de que maneira a vontade, trabalhando com a inteligência e a consciência auto-reflexiva, pode nos libertar da inevitável inconstância da mente e dos sentidos, sempre voltados para fora — é esse o objetivo do yoga. Aqui, o asana é de grande serventia para nós. (...)
Quando se consegue explorar, ajustar e sustentar cada novo ponto (em um asana), a percepção e a concentração se dirigem simultaneamente a milhares de pontos, e, com efeito, a própria consciência se torna penetrante e abrangente, iluminada por um fluxo dirigido de inteligência e atuando como testemunha transformadora do corpo e da mente. Esse é o fluxo de concentração (dharana) que leva a uma percepção elevada. (...)
(...) Um jeito simples de frisar a relação entre asana e dharana é o seguinte: se você aprende uma porção de pequenas coisas, um dia acabará conhecendo uma coisa grande.
Em seguida vem a meditação (dhyana). (...) Em termos técnicos, a verdadeira meditação, na acepção que lhe atribui o yoga, não pode ser praticada por alguém que se encontra sob estresse ou que tem um corpo frágil, pulmões fracos, músculos retesados, coluna envergada, mente flutuante, agitação mental ou timidez. (...)Para tanto, precisamos da preparação que nos oferecem as posturas e a respiração, o recolhimento dos sentidos e a concentração.
É por meio do asana que conseguimos relaxar o cérebro. (...)
(...) Yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi, juntas, são as pétalas do yoga. A meditação está em tudo. Todas as pétalas requerem um estado reflexivo ou meditativo.
O asana e o pranayama reduzem o estresse que impregna o cérebro; com o cérebro em repouso, a tensão é liberada. Da mesma maneira, ao realizar todos os tipos de pranayama, o corpo todo é irrigado de energia. Para praticar pranayama, é preciso ter músculos e nervos fortes, concentração e persistência, determinação e resistência. Tudo isso se aprende com a prática do asana. Os nervos relaxam, o cérebro, e o retesamento e a rigidez dos pulmões se desfazem. Os nervos são auxiliados a permanecer sadios. Você imediatamente alcança a unidade consigo mesmo, e isso é meditação. (...)
(...) A dualidade é a semente do conflito. Todos, porém, temos acesso a um espaço, um espaço interior, em que a dualidade e o conflito chegam ao fim. É isso que nos ensina a meditação: a cessação do ego artificioso e o despontar do Eu verdadeiro, unificado, além do qual nenhum outro existe. (...)
(...) O asana e o pranayama são o aprendizado para transcender a dualidade. (...) Embora, a rigor, só possamos meditar num único asana, é possível executar todos eles em um estado de meditação, e é nisso que se converteu minha prática hoje em dia. Meu asana é meditativo e minha prática de pranayama, devocional. (...)
No estágio final de samadhi (união), o eu individual, com todos os seus atributos, se funde com o Eu Divino, com o Espírito Universal. Os iogues entendem que o divino não está só no céu, mas dentro de nós também, e, nessa busca final da Alma, os que buscam se tornam os que vêem. Assim, experimentam o divino no centro do seu ser. Samadhi geralmente é descrito como a liberdade final, a libertação da roda do karma, da lei da causa e efeito. Ele nada tem que ver com a perpetuação do nosso eu mortal. Samadhi é uma oportunidade de encontrar nosso Eu imperecível antes que o efêmero veículo corpóreo desapareça, como é certo que o fará, em obediência ao ciclo da natureza.
Os iogues não permanecem nesse estágio de elevada beatitude, mas, quando retornam ao mundo, suas ações são diferentes, pois sabem, no íntimo do seu ser, que o divino nos une a todos e que uma palavra ou ação dirigida ao outro é ao fim e ao cabo, igualmente dirigida a si mesmo.
(...) A profunda e transformadora jornada iogue que aguarda os que procuram a Verdade consiste na busca interna de crescimento e evolução, ou “involução”. Iniciamos essa involução com o que há de mais tangível, nosso corpo físico, e a prática de yogasana nos ajuda a entender e aprender a tocar esse magnífico instrumento que foi dado a cada um de nós.

Trechos da Introdução do livro “A Luz na Vida”, de B.K.S. Iyengar (Summus Editorial).

2 de abril de 2011

Saudade da Índia

Sexta, 1º dia do 16º Festival É Tudo Verdade. Assisti Sáris Cor-de-Rosa no Reserva Cultural, sobre uma mulher que se tornou referência para muitas outras maltratadas na região onde mora. Mais tarde, comi um delicioso Masala Dosa recheado com batatas, acompanhado por Sambar e Chutney de Coco no Madhu (Augusta, 1422).
Aqui em SP, o filme Sáris Cor-de-Rosa, da diretora Kim Longinotto, ainda vai passar dia 5 às 19h no Reserva. Veja a programação do Festival em www.etudoverdade.com.br