palavras do Guruji

Dani na estrada

viagens pelo mundo afora e pelo universo dentro de mim.



"Você não precisa viajar a um lugar remoto para buscar a liberdade; ela habita seu corpo, seu coração, sua mente, sua Alma. A emancipação iluminada, a liberdade, a pura e imaculada felicidade estão a sua espera, mas você precisa escolher embarcar na jornada interior para descobri-las."
B.K.S. Iyengar em Luz na Vida

16 de julho de 2012

A Saúde é Vibrante!


Entrevista com Guruji Yogacharya BKS Iyengar sobre yoga terapia
(Entrevistado por Rajvi H Mehta em 2002 para a revista Yoga Rahasya)

Guruji, como você define yoga terapêutico?

Terapia lida com o corpo, a mente, assim como o ser. Diz respeito a como podemos formar uma metodologia para manter esse corpo, mente e inteligência funcionando coordenadamente com as várias funções estruturais. Yoga exerce papel importante em educar as pessoas a partir da periferia do corpo, com objetivo de alcançar as áreas mais internas, o que você pode chamar de mim, “eu”, ou ser divino. Todos os problemas surgem deste “eu” ou mim.

Atualmente o homem comum não entende o vedanta do yoga. Vedanta do yoga é unir o corpo, a mente e a inteligência com o suporte da consciência, assim todos eles se tornam uma única faceta do homem. A unidade acontece sem nenhuma divergência.

O corpo fala uma coisa, a mente fala uma coisa, as emoções falam uma coisa, o intelecto fala uma coisa. Então essas variantes que são comuns a todos, perturbam a harmonia da força vital, que comumente chamamos de saúde. Se há uma perturbação na força vital chamamos de má saúde. Essa força vital é influenciada pelas nossas ações e reações físicas, emocionais e intelectuais, que ocorrem dentro de nós ou em resposta ao mundo exterior. Não é fácil permanecer em um estado ritmado e equilibrado, apesar de esperarmos isso do yoga. Yoga terapêutico é uma terapia de vedanta, mas não uma terapia física como é comumente entendido. Significa entrar no âmago da causa dos males e desequilíbrios que geram a dor; tocá-lo e criar um ritmo. É terapia filosófica e não física.

Como você acabou de dizer Guruji, as pessoas ainda tendem a interpretar erroneamente que yoga terapia é uma extensão da fisioterapia já que trabalhamos no corpo através de asanas. Você gostaria de esclarecer esse engano?

Se a ciência moderna nomeia a performance de alguns movimentos como fisioterapia não significa que você também tem que nomear algo como o yoga como yoga terapia. Terapia começa no momento em que nascemos. Se você está levando uma vida imoral então precisa mover-se à uma vida moral, a um código ético de vida. Isso não é terapia? Sim. Então como podem as pessoas compararem yoga terapia e fisioterapia? Essas palavras são apenas fantasias para confundir as pessoas.

A força vital precisa ser cultivada. O ferro enferruja se não é usado. Assim também nossos corpos fisiológico, emocional, intelectual e mental se enferrujam. A vida se torna negativa quando se enferruja, porque a força vital não se movimenta através de todo o sistema gerando os ingredientes de vida nele. Não considero que nenhuma parte do yoga, como asana, pranayama e dhyana são terapias. Elas trazem um crescimento para o indivíduo alcançar seu nível de harmonia na vida.

A saúde é dinâmica, como venho falando constantemente. Saúde é uma força vivente. Saúde não é estática. Você não precisaria trabalhar nada se a saúde fosse estática. Saúde é movimento, como a mente está se movendo, o sistema interno celular do corpo também move-se. Então não existe nada além de movimento no corpo, seja dentro ou fora da mente. Se o movimento é vibrante e dinâmico, então a vida se move; saúde se move com a força vital positiva adicionada a ela. Por isso, saúde não pode se restringir a estar livre de doenças. Saúde não é apenas psicossomática. A força vital é a criação de Deus: não tem mente, não tem corpo. Ela se move e por isso é chamada vibrante.

E como a saúde é vibrante, temos que nos manter trabalhando nela, para que não nos tornemos enferrujados em nossa maneira de pensar e em nossa maneira de agir. Temos que canalizar a energia. As doenças se estabelecem quando a energia não se move. Por isso, não acho justo chamar toda essa ciência do yoga, que nos diz como utilizar essa energia através do poder intelectual, de terapia.

Sinto que é uma palavra errada que começou a ser usada e é um grande problema em como explicar às pessoas. Suponhamos que você está quieto e seu corpo e sua mente não estão funcionando, ainda assim não existe algo movendo-se em seu corpo? É isso que precisa ser trazido a superfície. Isso funciona como um poder que mantém o homem interior, o “eu”ou o ser, em um estado de felicidade mesmo após as reviravoltas emocionais e ambientais da vida.

Patañjali diz, “Prevenção é melhor que cura”. Se você pode prevenir que os elementos agressivos entrem no seu corpo com yoga, então como você chama yoga de mera terapia que cura doenças? Um precisa ser livre de desarmonias no corpo: a circulação sanguínea, o movimento da respiração e a circulação de energia. Temos os diferentes sistemas, o corpo neurológico, o sistema respiratório e o sistema circulatório. Eles todos existem, mas yoga ajuda a usá-los nos níveis mais altos para obter um efeito ótimo e você sente a saúde no corpo, mente e no ser. Estou falando do pequeno ser, que é o ego, o “eu” ou mim. Não estou falando de Atman. Considero yoga uma ciência que ativa a bioenergia (prana shakti) e a Força Cósmica Universal (visva caitanya shakti). Por isso, considero yoga uma ciência que faz  prana shakti e visva caitanya shakti trabalharem juntas com coordenação. Eles existem, mas precisam ser ativados. Se você os ativa, então é como o rio Ganga. Se não, é como um rio local, que tem água quando chove e seca completamente quando não. O sistema de yoga é dado para que esse rio nunca seque.

Com o avanço da tecnologia, a vida do homem materialista está se tornando mais e mais confortável. As pessoas estão sempre a procura de algo mais e por isso expressões como saúde holística, vida espiritual e iluminação estão se tornando muito comuns. É fácil usar tais expressões, mas como você consegue converter estas expressões em experiências?

É filosoficamente falado, “segurança é insegurança e insegurança é segurança”. Você já observou como as pessoas que são completamente seguras vivem? Elas ficam estagnadas; não há força vital nelas para trabalhar. O que você faz se está inseguro? Você trabalha. Você faz de tudo, porque está inseguro. Insegurança é um pilar para o avanço e para o crescimento. Não pegue o significado negativo disso. Segurança é um assassino da força vital enquanto insegurança é um construtor de força vital. Esta é a vida positiva. Insegurança é um pilar para a evolução de cada indivíduo.

Onde estão nos levando os confortos modernos? À falta de movimento, preguiça, negligencia e imprudência. Patañjali já disse isso há mais de 3 mil anos. Yoga nos ensina a ser ricos não somente por fora, mas também internamente. Conforto material é riqueza exterior, mas a pessoa pode estar completamente vazia por dentro. A ciência do Yoga diz, “não venda a riqueza da alma por fortuna material alguma.” Os aparelhos modernos estão tornando as pessoas objetivamente prósperas, mas paupérrimas por dentro. Isso é tudo que o Yoga ensina. Yoga ajuda a construir e adquirir riqueza no corpo, mente e inteligência. Ter uma conta no banco com milhões de Rupias indianas não é riqueza, mas pobreza.

Você não tem nada a expressar, então diz que tem muito dinheiro. Aquele que é pleno internamente expressa o que é. Yoga é também uma terapia intelectual se alguém ainda quer taxá-lo como terapia.

Yoga transforma as pessoas emocionalmente, intelectualmente e psicologicamente e ainda desenvolve estabilidade. E a partir dessa estabilidade desenvolve dinamismo.
Estabilidade não é o fim da vida. Estabilidade tem que ser positivamente dinâmica para mover-se a diante como um rio, que é cheio de energia de força do começo ao fim.

Guruji, por favor expresse sua visão sobre os shat kriyas?

Você deve compreender que esses tratamentos não estavam presentes na época de Patañjali e foram introduzidos mais adiante. Patañjali não explicou nenhum deles. Ele apenas falou de asana e pranayama. Os yoguis mais modernos introduziram os kriyas. Por que? Você acabou de mencionar que algumas amenidades modernas estão gerando doenças. Mesmo naquele tempo, o conforto material já trazia algumas doenças. Não havia tratamentos cirúrgicos naquela época então esses tratamentos radicais foram introduzidos.

Até mesmo hoje na medicina alopática, existem os tratamentos convencionais e os não convencionais. Tratamento convencional é o com remédios e o não convencional é o cirúrgico. Até mesmo em yoga temos os tratamentos convencionais e os radicais. O Hatha Yoga Pradipika, que descreve tais tratamentos radicais, também menciona a quem eles devem ser aplicados. Até hoje, encontramos situações onde um médico quer fazer uma cirurgia enquanto outro prefere o tratamento com remédios e não quer cirurgia. Muitos médicos não são a favor de uma cirurgia como primeira opção, enquanto nenhum cirurgião vai querer esperar. Hoje, se me permitem dizer, o conhecimento tornou-se um ganha dinheiro. Então algumas vezes garantir o ganha dinheiro é o motivo que leva as cirurgias. O Hatha Yoga Pradipika também diz para usar os kriyas para doenças que não podem ser controladas por outros meios. Hoje, tornou-se um importante princípio. Quem é o culpado por isso? Se não há catarro depositado em seus pulmões, então qual é o uso de se fazer dhauti?

Por favor, note que existem tratamentos de yoga convencionais e não convencionais, que foram introduzidos nos livros de hatha yoga. Os tratamentos não convencionais foram introduzidos posteriormente com o aparecimento e crescimento de certas doenças. Anteriormente não havia a necessidade de neti, dhauti, vasti, trataka e kapalabhati. Até hoje, pesquisas são feitas. Novas coisas são descobertas. Novos sofrimentos aparecem e novos tratamentos surgem quando são necessários. Os kriyas foram ensinados naquele tempo. Agora, não precisamos mais deles.

Pesquisas estão sempre acontecendo. Temos que praticar para reintroduzir algumas ações profundas no mesmo asana que já era praticado nos tempos mais remotos. Novas coisas devem ser adotadas no mesmo sistema de asanas e pranayamas.